


Um tom é um bom lugar
Segunda feira, dia de encontro do grupo de artistas do Núcleo Desenho Vivo. O destino é o Recanto Sandra em Caraguatatuba (SP), morada do artista plástico Antonio Carelli. No caminho - percurso que fizemos por quase 20 anos - vemos o mar, as montanhas e a floresta com belas e variadas tonalidades.
Carelli nos aguarda em frente à casa, no topo da ladeira: roupas claras, cabelos fartos, barba branca, rala e comprida.
O lugar é formado por diversos barracões, um para a reunião do grupo de artistas, outro para a artista Sandra Mendes, e um grande espaço, na parte superior da casa principal - o ateliê onde Carelli trabalha. Às vezes, com sorte, recebemos um convite para subir antes da nossa aula.
Logo na entrada, há uma mesa, muitos pincéis manuseados e a paleta de madeira descascada. Uma profusão de cores raspadas anuncia o tom forte da pintura que encontraremos. A poltrona velha e confortável está abarrotada de livros. Na parede, um jirau repleto de telas enfileiradas - a vasta obra de muitas fases do artista.
Ao redor, mosaicos e painéis cerâmicos disputam espaço. Cheira terebintina e tinta a óleo. Com um misto de ansiedade e prazer, nosso olhar percorre cada detalhe do local. Uma luz difusa, opaca e clara, ilumina o cavalete com a grande tela recém feita. Tons verdes e terrosos convidam a olhar mais de perto. Em silêncio estamos absorvidos.
Na pintura aparece a verdade essencial da paisagem da Mata Atlântica.
No entanto, no 'natural da natureza' está a potência da visão pessoal de Carelli.
Não é possível desviar o olhar. Experiência intraduzível de cor, matéria, luz e calor.
No tom dessa pintura cabe uma vida inteira.
Um tom para a cor
Um tom para o som
Um tom para o ser
Um tom pra viver
Um tom para todos nós
(Trecho da canção "Um Tom" de Caetano Veloso - 1997)
Núcleo Desenho Vivo
Bel Galvanese I Bernadete Silva I
Ana Dias I Edson Macedo I Rafael Marotti




























