

Villa Bella
Maristela Colucci
Uma travessia no tempo
Durante muitos anos, sonhei reunir fotografias antigas de Ilhabela que eu sabia estarem guardadas como tesouros sem mapas conhecidos. Recentemente, fui tateando até que os caminhos me levaram a alguns dos guardiões dessas preciosidades; pessoas de 60, 80 e até 96 anos que, generosamente, abriram suas casas, seus álbuns, suas caixas, suas vidas.
Embalados em suas memórias, revisitamos os engenhos em plena atividade, cruzamos o canal em canoa a remo e a pano, vimos o comércio com Santos florescer e, depois, minguar. Embarcamos em lendárias canoas que transportavam de produtos a noivos, convidados e também mortos. Acordamos no meio da noite encantados com os foliões de Reis em nossas portas e janelas, e navegamos em procissões de São Pedro, e assistimos à Congada, e nos envolvemos tanto que até escutamos o som da marimba.
Fomos prá lá e prá cá a pé e de bicicleta, desequilibrando-nos nos trechos por vezes arenosos das picadas entre as praias. Caminhamos muitos quilômetros para chegar diariamente à escola. Soltamos picaré com os adultos. Ouvimos o som do berrante chamando-os ao mar quando a tainha entrava.
Jovens, nos juntamos com amigas e amigos no pontão da Vila para tocar, cantar e, às vezes, dançar. Esse nosso cotidiano foi parar até nas telas de cinema, quando chegou aqui, pouco antes de 1950, a equipe do filme Caiçara, primeira produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.
Aos poucos, fomos recebendo os primeiros imigrantes e também os primeiros veranistas. Vimos a arquitetura se transformando diante das novas demandas. Testemunhamos a chegada do primeiro automóvel à ilha e de muitos outros quando a balsa iniciou sua operação – aí já estávamos batendo às portas da década de 1960. Por fim, avançamos pelos anos 1970 e continuamos pulando Carnaval e tingindo as águas do canal ao final do Banho da Dorothéa.
Tantas lembranças e emoções levaram-nos a essa viagem que as fotografias aqui revelam. Elas, que têm o poder mágico de atravessar o tempo, mesclando passado e futuro.
Todos os depoimentos mostraram um ponto comum: o amor por Ilhabela. É esse olhar amoroso que lançamos a Villa Bella/Formosa/Villa Bella da Princesa/Ilhabela desde o início do século passado, e chegamos ao dia a dia corrente com uma certa nostalgia e a vontade confessa de ter realmente vivido aqueles tempos simples e libertos.
Seguimos viagem, carregados agora de uma visão mais ampla e de novos sentimentos, que nos fazem entender melhor os dias atuais e lutar por um presente e um futuro dignos dessa terra e de seus habitantes, dos originários àqueles que um dia fizeram essa travessia guiados pelo coração.
Maristella Colucci
Curadora
Camila Prado
Textos





























